Travessia Marins x Itaguaré

Travessia Marins x Itaguaré

Estou de volta depois de 1 ano e meio fechado dentro de casa por conta da pandemia do Covid-19. Apesar de toda negligência e desinformação por parte do Governo Federal, parece que agora, com o avanço da vacinação em massa da população, os índices de contágio e mortes estão finalmente diminuindo.

Essa travessia é considerada uma das mais técnicas e tradicionais da Serra da Mantiqueira. Você tem a oportunidade de chegar ao cume de duas das montanhas mais especiais, O Pico do Marins, com seus 2420 metros e o Pico do Itaguaré, com 2308 metros. O percurso não é realmente muito extenso, cerca de 20km, mas por outro lado tem muito trepa pedra e momentos de navegação mais complicados, que exigem conhecimento prévio ou acompanhamento por GPS. Os trechos mais cascudos são depois do Marinzinho, no segundo dia da travessia, sendo o primeiro a descida do próprio Marinzinho, onde é aconselhável o uso de corda. Em seguida temos o trecho entre a pedra redonda e a base do Itaguaré, com muitos vales e bifurcações, onde a maioria das pessoas tem problemas de navegação. Por último, eu colocaria na lista, o ataque final ao cume do Itaguaré, pelo certo grau de exposição ao risco e o famoso “pulo do gato”, para chegar de fato a pedra do cume, onde esta o livro.

Como chegar, onde ficar e o resgate

O ponto de partida para a Travessia Marins x Itaguaré, ou para quem pretende somente subir o Pico do Marins, é o Refúgio Marins, administrado pelo Sr. Dito – (12) 99799-7524. O Refúgio fica na base da montanha, bem onde se inicia a trilha, e oferece uma infraestrutura completa para o montanhista, com alojamento para pernoite, restaurante, banheiro com ducha quente, estacionamento e muita simpatia. O nosso grupo de 4 pessoas optou por chegar de noite e pernoitar no alojamento, de manhã tomamos um café da manhã bem caprichado e seguimos para a trilha. Na volta também é possível combinar com o Sr. Dito um almoço e uma ducha quente antes de entrar no carro.

Em Agosto de 2021 os valores foram:

  • Pernoite em alojamento compartilhado com café da manhã (inclui estacionamento) – R$ 60 por pessoa
  • Pernoite em alojamento compartilhado sem café da manhã – R$ 40 por pessoa
  • Camping – R$ 15 por pessoa
  • Estacionamento – R$ 30 preço único
  • Refeição – R$ 35 (self-service)

Para chegar no Refúgio Marins de carro basta digitar “Refugio Marins” no Waze, ou para quem vem de São Paulo, seguir pela Dutra (BR-116) até a saída 51, rodovia Lorena-Itajubá (BR-459) e continuar até a cidade de Piquete, lá pegar a entrada à direita na Estrada Vicinal José Rodrigues Ferreira em direção ao bairro dos Marins. São cerca de 20km até a entrada do Refúgio. Caso você decida ir de ônibus precisa comprar uma passagem para Piquete e de lá contratar um transporte até o Refúgio.

No final da trilha combinamos com o Sr. Clóvis o Resgate na saída do Itaguaré. Ele tem uma van e um carro de passeio, e esta acostumado a fazer o resgate da maioria dos grupos que fazem a travessia e pretendem voltar até o Refúgio Marins. É possível fazer o agendamento do resgate lá, com o Sr. Dito, mas recomendo combinar com antecedência para não ter problema. O valor do resgate na Van saiu R$ 35 por pessoa, no caso do resgate ser em carro de passeio o valor seria R$ 150 a viagem. O telefone do Sr. Clóvis – (12) 99773-4889 ou (35) 99912-6720.

A Travessia

Planejamos concluir a travessia em 3 dias e 2 noites, com a ideia de passar a primeira noite no cume do Marins e a segunda noite no acampamento base do Itaguaré. Tem quem prefira fazer em 4 dias ou de uma vez só, sem o peso da mochila cargueira nas costas. Na minha opinião, depois de ter experimentado fazer a travessia em 2 dias alguns anos atrás, achei o cronograma de 3 dias mais confortável.

Dia 01

Saímos do Refúgio Marins sem nenhuma pressa às 8:15hs, depois de um enorme café da manhã oferecido pelo Sr. Dito. Com a cargueira nas costas seguimos caminhando em direção ao Morro do Careca, que seria nossa primeira parada. Estávamos um pouco preocupados com o número de pessoas na montanha, já que o Refúgio estava lotado e a previsão do tempo estava perfeita, com céu de brigadeiro e lua cheia. Em um ritmo forte em menos de 1h já estávamos no Morro do Careca e resolvemos dar uma paradinha para fotos e tomar água. Cada pessoa no grupo levou cerca de 3,5 litros de água para passar o primeiro dia e fazer o jantar de noite. Na verdade seria possível abastecer na base do Marins antes de fazer o ataque ao cume, mas resolvemos nos prevenir e carregar água.

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Perto da base do Pico do Marins, onde fica o entroncamento para quem deseja fazer o ataque ao cume ou seguir pela travessia rumo ao Itaguaré, o ambiente fica muito mais abrasivo, com formações rochosas por todos os lados. Justamente nesse entroncamento tem um ponto de água que seria possível abastecer, como na verdade fizemos no segundo dia. É um buraco com vegetação tipo bambu e uma água parada que parece nascer da pedra.

Seguimos a rota para o acampamento base do Marins com a ideia de avaliar a quantidade de barracas. Quando chegamos lá, por volta do meio dia, não havia nenhum grupo ainda e resolvemos fazer um ataque rápido ao cume para sondar os locais de acampamento. O trecho final de acesso ao cume é bem vertical, com algumas pequenas “escalaminhadas”, mas nada complicado e leva somente entre 10 e 20 minutos. Lá em cima havia um grupo bem grande do corpo de bombeiros que estava fazendo uma excursão de reconhecimento e não pretendia pernoitar na montanha. Logo que eles saíram pudemos escolher o melhor lugar para montar as barracas e buscar as mochilas lá em baixo, no acampamento base. No final acabou sendo uma ótima ideia dormir no cume, pois depois acabaram chegando cerca de 12 barracas no acampamento base.

Com as barracas armadas e depois de um descanso merecido, resolvemos tentar fazer um ataque rápido ao cume do Maria, logo ao lado do Marins. A trilha leva cerca de 30 minutos, mas tem um trecho um pouco mais complicado nas pedras, logo na saída do cume do Marins. Acabei não registrando no tracklog, mas foi muito legal a vista que tivemos de lá de toda a travessia.

Voltamos para o acampamento no cume do Marins e aproveitamos para preparar a janta e curtir o pôr do sol lá de cima. Com certeza um dos momentos mais especiais de toda a travessia foi ver o sol se pondo de um lado e a lua cheia nascendo do outro.

Dia 02

Acordamos cedo no segundo dia e fomos o primeiro grupo a deixar o cume do Marins. A descida até o entroncamento principal da travessia foi bem rápida e logo chegamos no buraco para a coleta de água. Usamos um filtro do tipo sawyer para filtrar a água parada da montanha e cada um decidiu levar cerca de 2 litros para continuar a travessia. Quase que em frente ao buraco da água tem início a subida do Marinzinho e um pouco acima avistamos um outro grupo na nossa frente que provavelmente havia pernoitado na base do Marins. Resolvemos alcança-los para aproveitar a ancoragem da corda na descida do outro lado do Marinzinho. Nós não levamos corda e estávamos na esperança de cruzar com um grupo e descer junto, o que realmente acabou funcionando. Esse grupo muito simpático deixou a gente descer na frente e em pouco tempo já estávamos rumando para a pedra redonda que fica bem no meio da travessia.

Todo esse trecho depois do Marinzinho é repleto de vales e cristas, com pedras e muito mato. Diversas bifurcações aparecem no caminho e é importante não se afobar nas escolhas, esperar o tempo necessário para seguir em frente e se for o caso voltar até a última bifurcação. Às vezes achamos que vale a pena cortar caminho e seguir varando mato, mas com certeza você só vai demorar mais tempo e se cansar em dobro. O GPS ajuda muito nesse processo, oferecendo suporte visual para os momentos de dúvida. Ao ampliar a visualização do tracklog é possível observar com bastante confiança o caminho correto.

A quantidade de 2 litros de água foi suficiente apesar do calor insuportável que fazia naquele dia. Chegamos em um acampamento anterior ao acampamento base do Itaguaré por volta das 15hs da tarde. Resolvemos montar nossas barracas lá, para fugir da bagunça e ter uma noite de sono mais tranquila, além de ser muito próximo do ponto de água. Descansamos cerca de 1h e resolvemos fazer o ataque até o cume do itaguaré. A parte final do ataque passa por entre as pedras e tem um certo grau de exposição. Para acessar a pedra do cume, onde se encontra o livro, é necessário dar um pulo entre uma pedra e outra. Essa parte da um friozinho na barriga, mas sem dúvida vale a pena chegar no cume do Itaguaré!

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Dia 03

Mais uma vez acordamos cedo e fomos o primeiro grupo a iniciar a descida. O trecho inicial ainda tem um pouco de caminhada sobre as pedras, mas em menos de 20 minutos já estávamos no meio da mata fechada. O restante da descida é bem tranquilo sem grandes vistas ou desafios. Já chegando no ponto de encontro cruzamos por um rio algumas vezes e é possível coletar água.

Lá embaixo ainda esperamos cerca de 1h até o Sr. Clóvis chegar e nos levar de volta para o refúgio. Estávamos planejando almoçar no Refúgio Marins e aproveitar a comida caseira local, mas quando chegamos tomamos um susto com a quantidade de pessoas e carros, resolvemos seguir em frente, entrar no carro e voltar para São Paulo.

Para cima e avante!

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