Dois paulistas no Pico Paraná

Dois paulistas no Pico Paraná

O Pico Paraná faz parte da serra do mar paranaense e é a montanha mais alta do sul do Brasil com 1877 metros de altitude. Sempre tive curiosidade de conhecer esse conjunto de montanhas da “serra verde” do Paraná, também conhecido como Ibitiraquire, berço do montanhismo brasileiro. É um local com clima muito incerto e com grande probabilidade de chuva durante os meses de verão, assim como todo sudeste do Brasil, mas com um visual incrível da mata atlântica preservada. Existem diversos outros cumes ao redor do Paraná e dependendo do tempo que você dispõe, vale a pena incorporar no seu roteiro. No nosso caso optamos por subir o Pico do Itapiroca no trajeto de ida até o cume do Paraná.

O ponto de referência para quem pretende caminhar pela serra é a Fazenda Pico Paraná, que fica na base da montanha e oferece uma estrutura com estacionamento, área de camping, água potável, banheiros com ducha quente e café da manhã. O administrador da Fazenda é o Dilson, que nos recebeu com um sorriso no rosto, tirou todas as nossas dúvidas e nos informou sobre as boas práticas – (41) 99906-5574. O valor em Fevereiro de 2020 era de R$ 15 por pessoa. A fazenda fica aberta 365 dias por ano e pode ser acessada por uma estrada de terra que sai da BR-116. Usei o Waze para traçar a rota, uma viagem de aproximadamente 5/6hs saindo de São Paulo.

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Eu e o Léo, meu grande amigo e companheiro de trilhas, saímos de São Paulo no final do dia de uma sexta-feira, com a ideia de chegar na Fazenda Pico Paraná antes da meia noite, acampar, acordar cedo e partir para a trilha logo após o nascer do sol. Como tudo na vida o plano inicial foi por água abaixo assim que chegamos na fazenda. O acampamento já estava cheio, com muito barulho e confusão. O Dilson, dono da fazenda, ainda nos alertou que deveriam chegar mais um monte de carros durante a noite e nos sugeriu seguir para a trilha imediatamente, evitando uma noite mal dormida e muvuca no dia seguinte.

Deixamos o carro no estacionamento, carregamos as últimas coisas nas mochilas e seguimos para o início da trilha com a ideia de chegar até o Morro do Getúlio para pernoitar. Apesar do cansaço da viagem, o novo plano mostrou-se excelente. Era uma noite muito agradável de fevereiro e o acampamento no Morro do Getúlio é repleto de platôs, além do fato de termos adiantado uma boa parte da trilha. Foram cerca de 450 metros de elevação acumulada saindo da base e levamos 1h e 15 minutos para chegar lá. A noite acabou sendo bem curta, dormimos pouco e acordamos com um vento forte que fazia a barraca sacudir.

Animados com a empreitada pela frente e satisfeitos com a decisão da noite anterior, demos adeus ao Morro do Getúlio e seguimos a trilha. Logo no início notamos que o terreno começou a mudar, a mata atlântica foi tomando conta do caminho e o nosso rendimento começou a cair, já que agora tínhamos que desviar de troncos, raízes, galhos e pequenos córregos. Fiquei imaginando como seria essa trilha em um dia de chuva, com muito barro e água…

Entramos em um vale que fica entre o Pico do Itapicora do lado direito e o Pico do Caratuva do lado esquerdo. Existe uma grande bifurcação no começo desse vale e seguimos a placa Itapiroca/Pico do Paraná que era a nossa intenção e é o trajeto convencional para ascensão do Paraná. Em pouco tempo chegamos a outra bifurcação, que dá acesso ao cume do Itapiroca e resolvemos deixar nossas mochilas cargueiras escondidas no mato para conseguir fazer um ataque rápido ao cume. A vista lá de cima vale o esforço, já que é possível ver o Pico Paraná e o mar de árvores verdes da serra. Ficamos pouco tempo lá em cima, com medo das nossas mochilas escondidas serem surrupiadas, e voltamos para o vale dos troncos e raízes.

Em cerca de 40 minutos chegamos em uma grande área de acampamento que imagino ser o abrigo 1 da montanha, mas resolvemos nem descansar, preferimos continuar em frente para conseguir um bom local de camping no abrigo 2, que era nosso objetivo. A trilha tem um pequeno desnível nesse trecho e depois uma subida bem íngreme, com uma parte de escalaminhada grande e um certo grau de exposição, onde existem alguns degraus de barra de ferro para auxiliar. Imagino que em um dia chuvoso pode ser desagradável subir com a mochila nas costas.

Chegamos na área do abrigo 2 bem antes do que estávamos imaginando e tivemos tempo de sobra para achar o melhor lugar para montar a barraca e procurar a fonte de água. O tempo estava ótimo, na verdade um pouco quente demais. O sol estava a pino e a sensação térmica devia estar próxima dos 34 graus. A vegetação rasteira e os poucos arbustos dificultaram na tarefa de achar uma sombra e acabamos passando umas 3hs queimando por ali. Acabamos decidindo fazer o ataque ao cume e voltar antes do sol se pôr. Sem o peso das mochilas nas costas em pouco tempo estávamos no ponto mais alto do sul do Brasil e admirando uma vista espetacular. Na próxima oportunidade vou me organizar para pernoitar no cume. Por conta da previsão do tempo perfeita, a montanha estava lotada e as poucas vagas de acampamento no cume já estavam tomadas. Ficamos cerca de 1h lá em cima, deu tempo de tirar algumas fotos e apreciar o momento.

De volta ao abrigo 2 percebemos que o acampamento havia se transformado, agora estava cheio de barracas sendo montadas e pessoas andando em todas as direções. Assim seguiu durante todo o entardecer e começo da noite, as barracas se acumulando e as pessoas se amontoando em seus grupos. Provavelmente a proximidade de Curitiba é o que torna o Pico Paraná tão atraente e acessível. O lado ruim disso é que notamos uma série de grupos completamente despreparados e com pouco conhecimento sobre as boas práticas no ambiente de montanha. Assisti um grupo fazendo uma fogueira com lenha perto de arbustos e outras barracas, em um ambiente com vegetação extremamente seca. Outros grupos colocaram música alta e ficaram bebendo a noite inteira.

Quando entramos no ambiente da montanha é importante reconhecer a diferença desse universo, tomar os devidos cuidados com os recursos disponíveis e acima de tudo tentar causar o mínimo impacto possível. O excesso de tráfego humano e o desrespeito às regras básicas de segurança podem ocasionar acidentes graves ou queimadas descontroladas como já vimos acontecer algumas vezes aqui na Serra da Mantiqueira. Seja consciente e proativo em suas ações quando estiver com seus amigos na montanha. Evite fazer aventuras com grupos muito grandes, não faça fogueiras, tente levar um shit tube para recolher seus dejetos, evite fazer barulho alto perto de outros grupos, tenha em mãos os equipamentos básicos de segurança, avise familiares e amigos sobre o seu destino e a data e horário que pretende estar de volta e respeite a natureza.

A noite estava extremamente quente, muito calor dentro da barraca e o barulho dos grupos ao redor durou até o começo da madrugada. Quando deu 4hs, já cansado de tentar dormir, resolvi acordar o Léo e desmontar o acampamento. Seguimos caminhando de volta para a Fazenda Pico Paraná durante a madrugada e só paramos para tomar café no Morro do Getúlio. A descida foi rápida e tranquila, quando chegamos na base da montanha aproveitamos a estrutura da Fazenda para tomar uma banho rápido antes de seguir viajem para São Paulo.

Foi muito gratificante chegar ao cume do Pico Paraná. A Serra Verde paranaense além de ser majestosa, oferece diversas possibilidades de trilhas para quem gosta de aventura. Pretendo voltar para fazer os outros picos ao redor do Pico Paraná.

Para cima e avante!

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