No cume do Huayna Potosi – aventura na Bolívia

No cume do Huayna Potosi – aventura na Bolívia

O Huanya Potosi é considerado um dos cumes de 6.000 metros mais fáceis de subir e fica perto do Brasil, ao norte de La Paz, capital da Bolívia. É uma excelente opção para quem assim como eu esta iniciando no mundo do montanhismo de altitude. Apesar de já ter vivenciado a ascensão do Monte Kilimanjaro (5800 metros) me considero um novato no assunto e a Bolívia esta logo aqui ao lado.

Para essa aventura tive muito cuidado no planejamento de cada detalhe, sabia que seria um desafio enorme organizar todas as etapas dessa expedição. Montamos um grupo de 5 amigos e iniciamos a conversa sobre a viagem no final de janeiro de 2019, colocando como meta o início de Maio. O maior obstáculo da organização seria contratar a empresa ideal para nos guiar nessa jornada. Em um primeiro momento ficamos entre 3 empresas: Bolivian Mountains, Kanoo Tours e All Transport. A primeira sem dúvida parecia a mais experiente e organizada, mas o valor da expedição era mais do que o dobro das outras e a questão do investimento falou mais alto. Fizemos uma extensa pesquisa na internet procurando comentários e avaliações sobre as empresas e acabamos surpresos pelo feedback positivo da All Transport.

Apesar da comunicação meio conturbada nas trocas de mensagens e emails durante a organização da viagem, ficamos muito satisfeitos com o cuidado e o atendimento da empresa boliviana durante toda a expedição. Não tivemos nenhum problema com a comida ou com os guias, tudo funcionou conforme o esperado.

A altitude

A ideia era chegar no Cume do Huanya Potosi e seus 6088 metros, mas para isso sabíamos que seria essencial um processo de aclimatação do corpo com a altitude. Aqui no Brasil vivemos próximos ao nível do mar e não estamos acostumados a caminhar em altas altitudes. A falta de oxigênio pode causar um enorme desequilibro no corpo e sintomas do mal de altitude, como dores de cabeça, enjoo, fadiga generalizada, falta de apetite e sonolência são frequentes. O nosso organismo produz uma quantidade maior de glóbulos vermelhos para compensar a falta de oxigênio, o que torna nosso sangue mais espesso. Assim, é fundamental a hidratação constante para evitar problemas mais sérios.

Uma boa aclimatação pressupõe alguns dias caminhando em altitudes crescentes. O ideal a partir dos 3000 metros é caminhar para cima durante o dia e pernoitar em altitudes mais baixas. Conseguimos nos organizar para tirar 8 dias na Bolívia, sendo 3 dias caminhando entre vales com altitudes de até 5300 metros, 2 dias na montanha rumo ao cume e os outros dias passaríamos em La Paz, que já esta a 3600 metros.

Vista do cume do Pico Áustria

Antes do início da viagem resolvemos consultar alguns médicos em relação ao processo de adaptação do corpo a altitude, e em conjunto com a opinião deles resolvemos tomar o diamox como forma de prevenção ao mal da altitude.

Diamox (acetazolamida) é um remédio que ajuda a prevenir o mal de altitude quando utilizado em conjunto com a ascensão gradativa. Diamox provoca aumento na taxa respiratória e também é um diurético; pode predispor à desidratação, e deve-se ingerir líquidos em abundância ao tomar esta medicação (4 litros por dia, no mínimo). Fique preparado também para o inconveniente de urinar com freqüência, especialmente durante a noite.” – texto do site ecofotos, Dr. Eric A. Weiss (recomendo a leitura integral).

Na minha opinião o uso do diamox foi positivo e ajudou no processo de aclimatação. Todos nós sentimos muito a ascensão do primeiro dia de caminhada assim como os dias do ataque ao cume, mas de maneira geral entendo que a medicação aliviou um pouco os sintomas do mal da altitude.

O roteiro e o custo

Compramos as passagens por cerca de R$ 1300 no site Boa (Boliviana de Aviación), com alguns meses de antecedência. Em contato com a All Transport da Bolívia chegamos a um acordo do itinerário e das condições de pagamento.

O roteiro dos 3 primeiros dias de trekking envolveria a ascensão do Pico Áustria (5350 metros) e algumas montanhas menores no caminho até o acampamento base do Huanya Potosi. A empresa também se responsabilizaria pela comida, com café da manhã, almoço e jantar, além do transporte (com mulas) dos utensílios e equipamentos pesados entre os abrigos do roteiro. O transfer entre La Paz e o início da trilha, assim como a volta também estavam inclusos no custo do pacote. Além disso, a All Transport fornece grande parte das roupas e equipamentos de caminhada em gelo (crampon, bota dupla, piolet, calça de neve, jaqueta de neve, capacete, luvas, cadeirinha de escalada e cordas) que são essenciais para o sucesso da expedição.

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O custo do pacote fechado com o aluguel de 1 saco de dormir (temperatura de conforto -10 °C) para as 4 noites ficou por volta de USD$ 310 por pessoa. Achamos o preço excelente comparado com o valor de algumas viagens que fazemos aqui no Brasil.

O que devo levar?

A escolha adequada das suas roupas e equipamentos pessoais é uma das etapas mais importantes do processo de organização antes da viagem. A lista de cada pessoa do grupo teve algumas diferenças, mas no geral estávamos muito parecidos.

Roupas

  • 3 Segundas peles parte de cima / 3 segundas peles parte de baixo
  • 2 camisetas de manga comprida para trilhas
  • 2 meias quentes de lã / 3 meias de trilha / 3 cuecas
  • 2 calças de caminhada
  • 1 luva interna / 1 luva externa / 2 gorros / 1 bandana tubo
  • 1 casaco fleece grosso / 1 casaco pena de ganso / 1 casaco anorak
  • 1 sapato para trilha (não levei bota) / 1 crocs para andar no abrigo

Equipamentos

  • 2 lanternas de cabeça / pilhas / carregador portátil / câmera fotográfica / celular
  • Garrafa térmica / garrafa de água / bolsa de hidratação
  • boné / óculos de sol / canivete / travesseiro inflável
  • mochila de 60 litros / mochila 20 litros de ataque

Comida

  • mix de nuts (+- 300 gramas) / 5 barras de cereal
  • 6 bananinhas com açúcar / 10 melzinhos / 3 barras de chocolate
  • bolacha / queijo / frutas desidratadas

Remédios e higiene

  • vonau / aspirina / advil / dorflex / buscopan / tylenol / predisin / diamox / dexametazona
  • papel higiênico / pacote de lenço umedecido / desodorante / pasta e escova de dente / álcool gel / protetor solar / protetor labial / pequeno kit de primeiros socorros / cloril

E aí, como foi a expedição?

Foi incrível! Com certeza a experiência mais desgastante que meu corpo já enfrentou. A luta contra os efeitos da altitude é muito particular para cada indivíduo, mas posso afirmar que enfrentei um grande adversário. Tive muitas dores de cabeça durante o caminho e no dia do ataque ao cume me superei para conseguir controlar as sensações de fadiga e mal estar constantes.

Saímos de São Paulo no dia 04 de Maio, sábado, no voo das 13hs com destino a La Paz. Após uma breve escala em Cochabamba aterrissamos às 17hs (horário local) na Capital da Bolívia, onde eu havia combinado com o Richard (dono da empresa All Transport) de nos pegar (valor não incluso no pacote). Fomos direto para o hotel no centro da cidade descansar. No dia seguinte tivemos tempo de sobra para visitar a sede da empresa All Transport e experimentar todos os equipamentos que usaríamos durante o ataque ao cume. A nossa principal tarefa era testar a bota dupla e achar o par ideal, mas aproveitamos o tempo para conhecer melhor o Richard e tirar todas as nossas últimas dúvidas sobre a expedição. No restante do dia saímos para explorar a cidade de La Paz e conhecer o sistema de transporte de teleféricos que passa por grande parte da cidade.

A expedição começou de fato na segunda, dia 06. De manhã entramos na van para uma viagem de aproximadamente 2hs até a vila Tuni e de lá seguimos em um trekking de 1h até a lagoa Chiarkota, onde estava localizado o nosso primeiro abrigo. Deixamos alguns equipamentos lá e continuamos caminhando com o intuito de fazer o cume do pico Áustria e voltar no final do dia. A subida é bem puxada e logo começamos a sentir os efeitos da altitude. Todos fizemos cume naquele dia e descemos rápido para aproveitar o restante da luz do sol.

Grupo do cume do Pico Áustria

Já chegando de volta ao abrigo a minha cabeça estava explodindo, parecia uma panela de pressão e decidi me medicar, tomei um advil para controlar a dor de cabeça. Me enchi de chá e água durante todo dia, com a intenção de hidratar o corpo o máximo possível. De noite jantamos uma sopa e um prato de arroz com frango que estava ótimo. Ninguém conseguiu pregar o olho naquela noite, era uma mistura de ansiedade e altitude. Devo ter ido cerca de 7 vezes no banheiro durante a noite, mas acordei melhor no dia seguinte.

Na manhã seguinte acordamos boquiabertos. Havia nevado durante a noite e a paisagem que já era incrível ficou de outro planeta. As montanhas e vales estavam repletas de neve, parecia que estávamos em um vale encantado. As mulas partiram levando os equipamentos mais pesados e nós seguimos montanha acima, com destino ao segundo abrigo, caminhando por uma encosta nevada cheia de alpacas e lhamas. Saímos de uma altitude de 4650 metros e chegamos no final da subida em 5000 metros. Do topo dessa passagem era possível finalmente ter uma vista privilegiada do Huanya Potosi e do desafio que teríamos pela frente.

Vista do Huanya Potosi

Continuamos do outro lado dessa passagem por uma descida onde a neve sumiu e surgiu um grande campo gramado entre vales que parecia uma cena do filme Jurassic Park. Em uma parte do caminho era possível avistar o lago Titicaca, além de outras lagoas menos conhecidas. Em um determinado lugar paramos para almoçar e foi justamente nessa hora que a dor de cabeça voltou com tudo. Achei prudente me medicar de novo para conseguir terminar o dia mais tranquilo do que no dia anterior. Apesar da dor de cabeça não tinha nenhum outro sintoma mais grave.

O segundo abrigo fica de frente para a face norte do Potosi e é parecido com o primeiro. Os banheiros são distantes da casa e na verdade são apenas buracos no chão. Dentro do abrigo tem uma única fonte luz, mas nenhuma tomada ou fonte para alimentar eletrônicos. Mais uma vez tivemos uma sopa no jantar e um prato com arroz e frango. Nessa noite consegui dormir um pouco e foi muito importante para acordar com energia.

O terceiro dia de trekking é mais curto e tem como destino o acampamento base do Potosi. Nesse dia chegamos a alcançar uma altitude de 5000 metros em uma passagem entre vales. A paisagem é um pouco mais árida do que no dia anterior, mas igualmente bela. No final da manhã o tempo virou e uma leve chuva caiu sobre nós, mas nada que atrapalhasse a caminhada. O roteiro da dor de cabeça parecia ter se estabelecido de vez, mais uma vez já chegando no acampamento base, a dor voltou com tudo, mas dessa vez esperei terminar o percurso para tomar um remédio.

O acampamento base é bem diferente dos outros abrigos que passamos, muito mais estruturado. Outras empresas também tem estruturas no local e muita gente circulava no entorno. Havíamos combinado de fazer um curso de escalada no gelo de tarde, mas achamos melhor descansar e recuperar as energias para subir até o acampamento alto no dia seguinte. Ficamos a tarde toda no acampamento base e a ansiedade em relação a subida começou a aflorar em todos no grupo. Era uma sensação de que agora estávamos no caminho para o cume e ao mesmo tempo muito receio do que poderia acontecer. Gonzalo, o guia líder da expedição, veio ter uma conversa com a gente a respeito dos procedimentos durante a subida e mostrar como usar cada equipamento. Preparamos a mochila e fomos deitar com a cabeça na montanha.

Para subir até o acampamento alto (5200 metros) são necessárias 3hs de caminhada, mas dessa vez com todo o peso dos equipamentos nas costas. Além das nossas roupas e coisas pessoais, também ficamos responsáveis por carregar as botas duplas, capacete, piolet e saco de dormir. O peso da mochila deve ter ficado por volta dos 17kg, o que estamos acostumados a carregar aqui nas trilhas da Mantiqueira, mas não a 5000 metros de altitude.

O acampamento alto já fica ao lado do campo de neve e tem uma estrutura de abrigo muito razoável. O nosso corpo sentiu a altitude e ficamos muito cansados durante todo o restante do dia. A minha cabeça voltou a doer, mas achei melhor guardar o remédio para tomar 1h antes da saída. O ataque ao cume é feito normalmente durante a madrugada, quando a neve esta mais firme e não a risco de avalanches. Outros dois guias se juntaram a expedição e Gonzalo dividiu o nosso grupo em duplas, sendo que uma pessoa ficou sozinha com um guia. Ficou estabelecido que teríamos um prazo máximo de 6hs para chegar ao cume e caso não conseguíssemos seríamos obrigados a dar meia volta. Durante o ataque ao cume cada um levaria um mochila pequena, somente com um pouco de comida e água, além de algum casaco extra.

Passamos o restante da noite com muita ansiedade e apreensivos com a condição que estávamos. Acho que ninguém pregou o olho, mas também evitamos ficar falando muito, apenas esperamos o tempo passar até a hora de partir. Às 12hs levantamos e preparamos o equipamento para sair, colocamos a bota dupla e todas as camadas de roupa. Após 15 minutos de caminhada nas pedras chegamos no campo de neve que segue até o cume. Lá fizemos uma parada para colocar os crampons e fazer o encordoamento entre as equipes. O início da caminhada na neve foi tranquilo, a adrenalina de finalmente estar fazendo o ataque ao cume estava alta e ajudou muito nesse começo. No meu grupo o Gonzalo ia na frente abrindo o caminho, eu seguia atrás e o Ivan por último na corda. Seguimos marchando na neve fofa durante horas. De vez em quando parávamos um pouquinho para descansar ou para tomar um chá quente, mas evitávamos ficar muito tempo parado.

Quando estávamos chegando no cume eu comecei a me sentir muito cansado, realmente exausto e com pouca energia. A cabeça incomodava um pouco, mas o que chamava mais atenção era uma moleza generalizada que tomava conta do meu corpo. Eu estava 100% focado e coloquei na minha cabeça que seriam 6hs de dor e sofrimento. Na última subida dei uma pequena titubeada, fiquei em dúvida se seria capaz de chegar lá. Foi quando o Gonzalo se virou para mim e disse – “Rodrigo, mira! El cumbre! Un poquito mas e usted llegará a la cima”. Foi o suficiente para eu levantar e seguir até o cume. Quando alcancei o topo a sensação de superação foi tão grande que desabei a chorar. Depois de 6hs de intensidade tivemos apenas 15 minutos para celebrar, tirar algumas fotos e olhar a paisagem. No final, 4 dos 5 amigos chegaram no cume, o que trouxe um pouco de tristeza para nós, já que tínhamos enfrentado tudo juntos e a ideia era celebrar como um grupo.

Cume Huanya Potosi
No topo do Huanya Potosi

Fizemos a descida de volta até o acampamento alto em 3hs e tivemos somente 40 minutos para descansar, preparar a mochila e continuar o caminho até o acampamento base. Mesmo lá embaixo não tivemos muito tempo, já entramos na van e seguimos para La Paz. No dia seguinte ainda tivemos tempo de conhecer um pouco mais a cidade e celebrar tomando algumas cervezas.

Considerações Finais

A Bolívia é um paraíso para quem procura aventura nas montanhas. Com preços acessíveis e paisagens maravilhosas é muito fácil cruzar a fronteira e explorar esse País magnífico. Nós todos no grupo tivemos uma experiência incrível, fomos muito bem recebidos pelo povo boliviano e assessorados pela All Transport durante a expedição. Não se esqueça de dar uma bela gorjeta para os guias no final da viagem, é uma prática muito comum na montanha.

Para cima e avante!