Travessia Baependi x Aiuruoca

Travessia Baependi x Aiuruoca

Apesar de já ter ouvido falar muito bem sobre a região do Vale do Matutu, Aiuruoca e do Parque Estadual da Serra do Papagaio, nunca consegui me organizar para conhecer as trilhas e cachoeiras dos arredores. A travessia entre Baependi e Aiuruoca atravessa o Parque da Serra do Papagaio em uma rota nordeste, passando por diversos vales e serras, em um trajeto de aproximadamente 45 km, com cerca 2600 metros de elevação acumulada.

O Parque Estadual da Serra do Papagaio esta localizado no sul de Minas Gerais e faz parte da Serra da Mantiqueira, interligando-se com as cadeias montanhosas de Itatiaia. A entrada ao Parque é gratuita e a visitação não acontece de forma manejada, mas lá dentro você poderá visitar aproximadamente 1.200 nascentes de água, 240 cachoeiras e 28 cânions. É um paraíso que esta sendo descoberto nos últimos anos e ainda tem um fluxo relativamente pequeno de pessoas. Só para ter ideia, durante a travessia encontramos somente um outro grupo de 3 pessoas que estava fazendo o trajeto inverso, mas o restante do caminho era somente nós e a mata. Também cruzamos algumas placas e construções que servem como abrigo de montanha, mas não passamos por nenhuma portaria tanto na entrada em Baependi como na saída em Aiuruoca. Imagino que o plano de manejo do Parque esteja em processo de elaboração e que em breve o acesso seja controlado.

Serra do Papagaio

A trilha é bem demarcada e 90% do tempo caminhamos com grande amplitude visual do trajeto, mas em muitos pontos a trilha se divide e pode ocasionar dúvida em relação a navegação.  As cachoeiras com certeza são um grande diferencial dessa travessia em relação as outras trilhas da Mantiqueira. Tivemos a oportunidade de nadar duas vezes, na cachoeira da Juju e na cachoeira do Charco. A água é gelada e somente os corajosos aguentam ficar mais de 5 minutos, mas com certeza vale a pena!

Como chegar

Optamos em pegar a Dutra para chegar em Baependi saindo de São Paulo, mas você tem a opção de ir pela Fernão Dias também. Pela Dutra você deve sair na altura de Cruzeiro e seguir pela estrada até Caxambu. Lá encontramos o Paulo Victor (35 98821-8267) que contratamos para nos levar até o início da trilha e fazer o resgate em Aiuruoca dois dias depois. Esse arranjo vale muito a pena para quem esta em um grupo de 3 ou 4 pessoas. É muito confortável terminar a trilha e já entrar no carro de volta para São Paulo.

O Roteiro

O roteiro da travessia foi montado em virtude da disponibilidade de tempo que tínhamos. Resolvemos fazer o trajeto em 3 dias e 2 noites, sendo que o último dia na verdade caminharíamos somente no período da manhã. Programamos chegar em Caxambu às 8hs para encontrar o Paulo e iniciar a trilha às 10hs. O objetivo do primeiro dia era caminhar até a cachoeira da Juju, o segundo dia chegar até a base do Pico Papagaio (acabamos optando em pernoitar no Retiro dos Pedros) e o 3 dia descer até Aiuruoca. A previsão do tempo mais uma vez acertou na mosca e tivemos 3 dias espetaculares de sol e céu azul.

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É uma trilha puxada por conta da distância, mas tecnicamente muito mais fácil que outras trilhas como a Serra Fina, Marins x Itaguaré e a Travessia entre Petrópolis e Teresópolis. Posso destacar três pontos que tornam essa trilha um pouco mais tranquila: a abundância de água, amplitude visual no trajeto e a relativa baixa elevação acumulada. Não é necessário carregar mais do que 1,5 litros com você durante o dia, cruzamos o tempo todo com rios e optamos em acampar em locais com pontos de água. O desgaste físico pode ser amenizado se você adicionar 1 dia na travessia e completa-la em 4 dias, assim como vimos em outros relatos.

Dia 1 – saída de São Paulo e início da trilha

Acordei por volta das 3:20hs da manhã em São Paulo, peguei minha mochila e segui para o ponto de encontro do grupo. Ninguém atrasou e conseguimos sair no horário programado, perto das 4hs da manhã. A viagem até Caxambu foi tranquila e tivemos tempo para uma breve parada para o café da manhã. Lá encontramos o Paulo que ficaria responsável por nos deixar no começo da trilha e pelo resgate. De Caxambu até o ponto inicial da travessia demorou cerca de 1h de carro em estrada de terra batida que estava em ótimas condições. Finalmente iniciamos a caminhada às 10:20 da manhã com destino a cachoeira da Juju onde faríamos nosso primeiro pernoite. A parte mais desgastante desse dia é justamente esse começo, onde enfrentamos uma subida de quase 5km até o Morro do Chapéu. Para subir o Morro do Chapéu você deve pegar uma bifurcação à esquerda e caminhar cerca de 500 metros e justamente perto dessa bifurcação tem um ponto de água. A vista do Morro é bem ampla e realmente vale apena o esforço de conquistar esse cume.

Serra do Papagaio

O restante do dia caminhamos na parte alta das montanhas por uma vegetação rasteira e com poucas subidas e descidas. No meio do caminho tem o Pico do Chorão que acabamos perdendo, mas por outro lado visitamos o abrigo do chorão que fica na beira de um rio e tem uma pequena estrutura para pernoite. Aproveitamos essa parada para descansar um pouco e comer alguma coisa. Alcançamos a cachoeira da Juju pouco tempo depois e logo fomos nos familiarizar com o local de acampamento. A cachoeira tem um visual lindo da Serra, com algumas casas no fundo e o sol se põe bem em frente. Já o local destinado para as barracas é meio desajeitado, com muitas raízes e pequenos espaços. Para chegar na cachoeira da Juju caminhamos por 14km em um terreno com elevação acumulada de 960 metros.

Travessia do Papagaio

Serra do Papagaio

Dia 2 – cachoeira da Juju até Retiro dos Pedros

Acordamos cedo, antes das 6hs, para fazer as coisas com calma. De noite fez frio e a temperatura deve ter chegado perto dos 10°C. Eu não passeio frio, mas o Cesar que estava comigo na barraca e tinha um saco de dormir mais leve reclamou bastante. Após o café da manhã conseguimos sair do acampamento às 8:40hs, com o intuito de caminhar bastante e talvez chegar até a base do Pico do Papagaio. Logo na saída da cachoeira da Juju acabamos pegando o caminho errado e tivemos de fazer um grande “vara mato” para consertar a rota. Você deve se manter a direita saindo da Juju e seguir um caminho bem inclinado.

Serra do Papagaio

Após esse começo turbulento não tivemos nenhum outro problema de navegação, mas existem outros pontos que você deve ficar atento, principalmente em uma bifurcação antes do “Vale das Araucárias”. O maior caminho segue pela direita, mas existe uma pequena bifurcação na esquerda com um totem e é por lá que você deve seguir. Pouco tempo depois dessa bifurcação cruzamos pelo Rio do Charco que exige que você tire a bota para atravessar e aproveitamos o momento para dar uma parada e nadar um pouco antes de continuar. O percurso depois do rio segue por entre subidas e descidas entre uma vegetação às vezes fechada e em outros momentos rasteira, sempre há pontos de água para reabastecer. É um dia bem puxado, com uma distância grande para ser percorrida e acabamos optando por pernoitar um pouco antes da base do Papagaio. Paramos no Retiro dos Pedros, que é um lugar perfeito para acampar, com uma excelente área de camping e espaços bem protegidos por paredes de pedras empilhadas. Lá também tem um pequeno córrego de água, que estava bem minguado, mas era possível coletar. Outra vantagem foi que acabamos tendo tempo para montar o acampamento com calma e ir ver o pôr do sol no Pico do Tamanduá Bandeira que fica relativamente perto e sem dúvida foi o ponto alto da viagem. Foi um total de 18km de caminhada até o Retiro dos Pedros, com cerca de 1250 metros de elevação acumulada, chegamos às 4:30 da tarde.

Pico do Tamandua Bandeira

Dia 3 – Retiro dos Pedros – Pico do Papagaio – São Paulo

Havíamos combinado com o Paulo o resgate para 13:00hs no final da trilha, onde há uma fazenda de criação de trutas. O trajeto até lá, passando pelo Pico do Papagaio, tem cerca de 12,5km e 400 metros de elevação acumulada. Resolvemos sair cedo para não atrasar e conseguimos iniciar a caminhada às 7:50 da manhã. A trilha nesse início é muito tranquila, caminhamos um bom tempo por uma área plana e depois o percurso vai afunilando até entramos em um terreno típico das cristas rochosas. A vista é de 360 graus e o cume do Papagaio pode ser avistado. Quando chegamos até a base deixamos as mochilas e seguimos para o cume sem o peso extra. Nesse percurso até o topo do Papagaio não encontramos nenhum ponto de água, mas segundo outros relatos existe algum ponto na base. Após esse bate e volta que durou quase 1 hora começamos a descida até o final da trilha. Na descida cruzamos vários pontos de água e conseguimos chegar às 12:15, antes do horário combinado.

Pico do Papagaio

Para cima e avante!