Travessia da Serra Fina

Travessia da Serra Fina

Já fazia alguns anos que a Travessia da Serra Fina estava no topo da minha lista de aventuras, mas por alguma razão nunca conseguia realizar esse sonho. No ano passado por duas vezes cheguei a organizar a viagem com amigos, mas na última hora alguma coisa acabava dando errado. O destino decidiu que a viagem fosse nesse ano, no começo da temporada de montanha, no início de Maio. A escolha da data foi acertada, pegamos dias maravilhosos de céu azul e vistas incríveis da Serra da Mantiqueira. A data da viagem fez parte de um longo processo de planejamento e pesquisa que começou meses atrás na formação do grupo e distribuição de tarefas e culminou 2 dias antes da viagem com a confirmação meteorológica de tempo firme.

A Serra Fina carrega o peso de ser considerada uma das travessias mais difíceis do Brasil e por alguma razão toda essa mística acabou impactando a minha expectativa sobre a viagem. Por mais de já ter vivenciado trilhas mais longas e complicadas, lá no fundo existia uma pequena coceira de euforia e uma alegria de poder escrever mais uma página no meu livro de aventuras. A Serra Fina é sem dúvida uma travessia exigente, com muita elevação acumulada e trechos de navegação complicados. Entretanto, grande parte dos problemas podem ser amenizados com um bom planejamento da viagem. É fundamental a leitura de relatos e a pesquisa sobre as dificuldades que você irá enfrentar pelo caminho. Estudar onde estão os pontos de água, em quantos dias completar a travessia, onde pernoitar, quais são os pontos de saída em caso de emergência, quanta comida levar, quanto de água carregar durante cada dia, quais equipamentos são essenciais e por aí vai.

Para uma viagem dessas é importante que você esteja confortável com o grupo do qual fará parte, pois são alguns dias juntos e você depende deles, assim como eles dependem de você. No meu caso não poderia estar em melhores mãos! Formamos um grupo de 4 grandes amigos (Eu, Leo, Rafa e Marcelo), de longa data, todos aventureiros e acostumados com o ambiente de montanha. O ideal é que todos estejam com um condicionamento físico parecido para que o ritmo do grupo seja constante e ninguém fique muito para trás e nem muito na frente. As expectativas em relação ao ideal da viagem também devem ser parecidas, no nosso caso estávamos ali para curtir o máximo possível, sem pressão de tempo ou ritmo. Justamente por isso resolvemos fazer a travessia da forma clássica, em quatro dias, dormindo cada noite em uma montanha (Capim Amarelo, Pico da Mina e Pico dos 3 Estados). Optamos por iniciar na “Toca do Lobo”, do lado de Passa Quatro, Minas Gerais, e terminar no “Sítio do Pierre”, em Itamonte, perto da entrada para o Parque Nacional do Itatiaia.

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Resolvemos nos hospedar perto do final da trilha pensando que estaríamos cansados na chegada e seria muito bom não ter que fazer uma viagem de 1:30hs até o início para buscar o carro estacionado. Ficamos hospedados no Picus Hostel, que fica a cerca de 2km do final travessia e oferece, além do quarto compartilhado, banho quente e refeições, também o  transporte até o início da trilha. Foi maravilhoso poder chegar da trilha e ir direto tomar um banho quente e comer um almoço completo, com frango, arroz, feijão e até farofa com banana.

A data que escolhemos acabou coincidindo com a data do desaparecimento do francês Eric Welterlin no Pico do Marins, a poucos quilômetros da Serra Fina. Quando entramos na trilha ele ainda estava desaparecido, apesar do grande esforço feito pelas equipes de busca. O fato me causou certa perplexidade e ficamos discutindo o que poderia ter ocorrido com o francês em vários momentos da viagem. O que levaria uma pessoa tão experiente a se perder na mata? Assim como ele também gosto de fazer trilhas sozinho e com certeza cometi muitos erros nas minhas viagens. Um dos maiores riscos de se caminhar sozinho é subestimar a força da natureza e por conta disso não fazer um planejamento adequado para a sua aventura. Por mais confiante que você esteja em sua forma física é essencial checar a previsão meteorológica, avisar parentes sobre o trajeto pretendido e horário previsto de início e término, levar equipamentos de primeiro socorro, água e comida. Na região do Pico do Marins, assim como na Serra Fina, a temperatura pode ser extremamente baixa durante a noite e sem muita visibilidade é fácil se perder. Na data em que ele saiu para treinar havia uma grande cerração na parte alta da montanha e a visibilidade era de poucos metros. O fato todo acabou nos deixando mais alertas com o desafio.

Para essa viagem resolvemos (foi ideia do Leo) levar o “shit tube” para a montanha. É muito comum, em grande parte das trilhas do Brasil, encontrar os locais de acampamento infestados de sujeira e lixo. Na Serra Fina mesmo encontramos diversos pontos que parecem banheiros públicos, com papel higiênico usado a céu aberto. O “shit tube” nada mais é que um recipiente para armazenar as suas fezes e levar embora da montanha, para depois ser descartado em local apropriado. Para quem não conhece o sistema a ideia parece meio absurda, mas na verdade torna a vida mais fácil e ajuda muito na diminuição do nosso impacto na montanha. Para quem quiser conhecer mais sobre o assunto, veja esse link do Blog de Escalada.

Dia 1 – Toca do Lobo – Pico do Capim Amarelo

Acordamos na pousada e logo seguimos em direção a cidade de Passa Quatro, levados pelo Felipe dono do Picus Hostel onde estávamos hospedados. No caminho fizemos uma breve parada para o café da manhã e continuamos o trajeto até a base do Capim Amarelo. Chegando lá nos despedimos do Felipe após uma foto do grupo e partimos (9:30 AM) em direção a Toca do Lobo, o início propriamente da trilha.

O primeiro dia caminhamos cerca de 6km até o cume do Capim Amarelo em um trajeto com aproximadamente 1100 metros de  ganho de elevação. Este é o dia onde caminhamos menos, mas por outro lado é o dia com maior elevação acumulada. O primeiro ponto para abastecer as garrafas de água é logo no córrego em frente a Toca do Lobo, mas somente 1 ou 2 litros é suficiente para esse início de trilha. O outro ponto será no “Quartzito”, antes do cume, e lá você deve coletar água suficiente para pernoitar no Capim Amarelo e seguir até o final do dia seguinte (4 ou 5 litros por pessoa). Só para ter uma ideia de tempo chegamos no “Quartzito” às 11:00 AM, apenas 1:30hs depois do início da caminhada.

É um dia puxado, com subida o tempo inteiro, mas a medida que você vai ganhando altitude a beleza da Mantiqueira vai se revelando. A trilha de todo primeiro dia é bem batida e demarcada, com poucas bifurcações e praticamente não causa dúvidas de navegação. O tempo estava quase perfeito, com sol entre nuvens e pedaços de céu azul. A temperatura também estava muito agradável e conseguimos chegar no cume às 14:05 PM, em um tempo menor do que o esperado. Tivemos tempo de sobra para montar o nosso acampamento e preparar o jantar de gala, com risoto e linguiça. Tem diversos pontos para montar barraca no cume da montanha e só havia nós lá em cima. Imagino que em feriados o lugar deve ficar lotado e bem apertado. Já perto do final da tarde tivemos a sorte do tempo melhorar ainda mais e ficamos admirando o pôr do sol. Eu que iniciei o dia meio resfriado já estava me sentindo melhor.

Dia 2 – Capim Amarelo – Pico da Mina

Por volta das 6 da manhã todos já estavam de pé. Eu acordei quase 100% recuperado do meu resfriado e o Marcelo que também sofria com um resfriado continuava meio ruim. Durante a noite deve ter chegado a bater próximo de uns 5 graus e meu saco de dormir (conforto 9 graus) estava no limite. Acabei dormindo com duas calças e casaco. Tentamos agilizar ao máximo o café da manhã e a saída para a trilha. Nessas horas é muito importante ter uma mochila organizada, com espaços pensados para cada objeto. Isso torna o processo de montar e desmontar o acampamento muito mais rápido.

O segundo dia é sem dúvida o mais intenso, com muita subida e desgaste físico. Tem cerca de 9km de percurso e 1020 metros de elevação acumulada. O próximo ponto de água é somente na base da Pedra da Mina, já quase no final do dia. Saímos do Alto do Capim Amarelo às  8:20 AM, ainda estava um friozinho e acabamos nos perdendo, pegamos uma saída à direita, mas deveríamos ter nos mantido à esquerda. O GPS no meu braço começou a apitar avisando que não estávamos mais na trilha e resolvemos parar para avaliar as possibilidades. Após algumas breves tentativas achamos uma bifurcação à esquerda que se ligava com a trilha principal e daí em diante foi só seguir em frente. Por azar o Marcelo que já estava meio resfriado acabou torcendo o pé no meio do caminho e acabou inchando um pouco, mas nada que o impedisse de andar.

Chegamos na base da Pedra da Mina para coletar água às 3:00 PM. Nesse ponto é importante você coletar água somente para passar a noite na Pedra da Mina e o começo da manhã, já que terá outro ponto no Vale do Ruah. O ataque final para o cume da Pedra da Mina é bem inclinado, mas é curto. Chegamos lá em cima às 3:35 PM e o céu estava completamente azul com uma vista espetacular da Mantiqueira e cidades do arredor. Já visitei muitos lugares mágicos, mas sem dúvida a Pedra da Mina vai ficar na memória, afinal de contas é o quarto ponto mais alto do Brasil!

Dia 3 – Pico da Mina – Pico dos 3 Estados

O ponto mais alto da viagem talvez tenha sido ver o nascer do sol no Pico da Mina. Ele surge atrás do Agulhas Negras de Itatiaia e vai iluminando toda a cadeia de montanhas que forma a Serra da Mantiqueira até o Vale do Ruah que esta logo abaixo de nós. Simplesmente espetacular!

Seguimos o mesmo processo do dia anterior para desmontar o acampamento, mas com um pouco mais de calma. Acabamos começando a caminhada às 9:00hs da manhã. O pé do Marcelo deu uma piorada e o inchaço aumentou um pouco. Ajudamos ele a fazer uma estrutura de apoio no pé com esparadrapo e isso acabou sendo fundamental para ele aguentar o terceiro dia.

Logo no início tem uma grande descida até o Vale do Ruah, que de longe parece um grande pasto entre as montanhas, mas quando você chega perto a dimensão das coisas muda drasticamente. Na verdade o Ruah é um mar de capim seco, com cada capim medindo quase 2 metros de altura, o que torna a navegação bem complicada. A vegetação é bem fechada e o terreno tem muitos pontos alagados, como um charco. Você deve caminhar deixando a margem do rio do seu lado esquerdo e seguindo para o funil do Vale, em direção ao Pico dos 3 Estados. Lembre-se de abastecer as garrafas de água antes de deixar o Vale, com água suficiente para o restante do dia, o pernoite e para metade do dia seguinte. Acho que optamos em carregar 5 litros cada um e foi o suficiente, talvez poderia ser menos. Tem gente que consegue economizar mais no consumo de água e não tem problema em ficar algum tempo com escassez. Aproveitamos a parada para abastecer as garrafas e entramos no rio gelado do Vale do Ruah. Foi uma ótima ideia se refrescar antes de seguir adiante com todo aquele peso nas costas.

O restante do dia passa por diversos morros em uma trilha com muito mato. Recomendo o uso de manga comprida o tempo inteiro (eu não fui e me arrependo) para não ficar com o braço cheio de cortes. Nesse dia começamos a ver mais de perto o maciço de Itatiaia e a vista continuava maravilhosa. Antes do ataque final ao cume do Pico dos 3 Estados fizemos uma parada para comer alguma coisa e contemplar o Agulhas Negras. Assim como na Pedra da Mina, esse trecho final é bem inclinado. Foi um dia puxado com cerca de 7.1km de percurso e 550 metros de ganho de elevação. Chegamos no cume por volta das 4:15 da tarde, com temo suficiente para armar as barracas e curtir o último pôr do sol da viagem.

Dia 4 – Pico dos 3 Estados – Sítio do Pierre

No dia de despedida da Serra Fina acordamos bem cedo e saímos às 8:05 da manhã. Tomamos um café da manhã bem reforçado com o objetivo de não fazer muitas paradas, já que ainda iríamos voltar para São Paulo no mesmo dia. O pé do Marcelo ainda não estava bom, mas ele aguentou firme até o final. O começo da caminhada tem algumas subidas, mas do meio para frente é uma descida sem fim. Esse último dia caminhamos por cerca de 10.6km em um percurso com 330 metros de ganho de elevação e 1400 metros de declive.

Quando finalmente chegamos na bica de água ainda tínhamos cerca de meio litro na bolsa de hidratação e resolvemos seguir em frente sem completar. Mais uma hora e meia e estávamos na pousada com o sentimento de missão cumprida e alegria de ter vivenciado essa experiência entre amigos de longa data. O almoço já estava pronto e foi só o tempo de tomar uma ducha rápida e sentar para almoçar.

O que tinha na mochila?

  • Barraca para duas pessoa (MRS – Hubba Hubba)
  • Isolante térmico (Thermarest – NeoAir XLITE)
  • Saco de dormir (não sei a marca, 5 graus extremo – deveria ser 5 graus conforto)
  • travesseiro inflável
  • Conjunto de Cozinha (GSI – Pinnacle Dualist)
  • 1 gás de cozinha
  • Comida – jantar / lanche de trilha (dividimos a comida entre os 4)
  • Roupas (Anorak, Fleece, camisa segunda pele, calça segunda pele, meia e cueca extra, 2 camisetas extra de trilha, gorro, luva)
  • 2 lanternas de cabeça / canivete / faca pequena
  • Garrafas de água (levamos garrafa PET para armazenar água)
  • Bolsa de hidratação – 2 litros
  • Power bank / câmera fotográfica / carregador GPS (Garmin Fenix 3 HR)
  • Higiene pessoal (escova de dentes, pasta, protetor solar, papel higiênico)
  • Bolsa de primeiros socorros e medicamentos

A comida

São 3 noites na montanha e o jantar é o grande momento para repor as energias. Optamos por trazer uma mistura de comidas liofilizadas com outras coisas. A comida liofilizada tem a vantagem de ser muito leve e fácil de carregar, mas tem a desvantagem de ser muito cara.  Na primeira noite tivemos um banquete de risoto com legumes liofilizado misturado com linguiça calabresa. Na segunda noite macarrão pronto com frango liofilizado e na terceira noite uma mistura dos restos das duas noites anteriores.

Para o café da manhã e lanche de trilha levamos pão, manteiga, nutella, café, salaminho, frutas, barras de cereal, mistura de nozes, chocolate e café solúvel entre outras coisas.

Pontos de Água

1 – Córrego Toca do Lobo (Coletar água somente para 2hs de trilha)
2 – Quartzito (Coletar água para pernoitar no Capim Amarelo e até o final do dia seguinte)
3 – Base da Pedra da Mina (Coletar água para pernoite na Pedra da Mina e começo da manhã)
4 – Vale do Ruah – (Coletar água no final do Vale para o restante do dia, pernoite no Pico dos 3 Estados e metade do último dia)
5 – Antes do Sítio do Pierre (Coletar água para o final da trilha)

 

Para cima e avante!