Travessia da Juatinga

Travessia da Juatinga

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Essa aventura transcorre no extremo litoral sul do Estado do Rio de Janeiro, dentro do município de Paraty, local também conhecido como Costa Verde. Essa parte do nosso litoral é ainda muito preservada e hoje faz parte de uma área de proteção ambiental e da Reserva Ecológica Estadual da Juatinga que além de outras coisas abriga as comunidades caiçaras tradicionais da região.

A preservação desse paraíso natural e cultural somente foi possível devido a enorme distância para os grandes centros comerciais e da precariedade de acesso, apenas através do uso de barcos ou por trilhas.

Existem diversas variantes para esse percurso e com graus de dificuldade bem diferentes. O roteiro mais utilizado é feito normalmente em 3 dias e sai da praia do Pouso da Cajaíba e vai em direção à Vila do Oratório, depois da praia do sono, onde existe acesso ao transporte.

No meu caso estava interessado em conhecer o Saco do Mamanguá e fazer um trajeto um pouco maior, que envolvesse a subida ao Pico do Pão de Açúcar. Assim, resolvi iniciar a aventura em Paraty Mirim e completar o percurso até a Vila do Oratório em Laranjeiras, o que resultou em aproximadamente 43km de trajeto, mas que na verdade viraram quase 50km devido a pequenos desvios.

Mapa

Plano de Viagem

A ideia surgiu durante uma conversa com meu irmão Daniel sobre qual seria a nossa próxima aventura. Ele, na verdade, é um louco pelo “Stand up” ou “SUP” (aquele esporte que você rema em pé na prancha) e um exímio remador, com muita experiência em travessias marítimas. A passagem da Joatinga pelo mar é um desafio para qualquer embarcação visto que, guardada as devidas proporções, é conhecida como a travessia do “Cabo Horn” brasileiro.

Não querendo ficar para traz fiz um plano audacioso que envolvia sair de Paraty Mirim, subir o Pico do Pão de Açúcar e chegar até a Praia de Martins de Sá em um único dia. Lá eu encontraria meu irmão para sair no dia seguinte e percorrer o trajeto até a Vila do Oratório.

Nós tínhamos somente 2 dias para fazer a travessia, ele por mar e eu por terra. Iria ser puxado e um pouco perigoso, já que ambos viajariam sozinhos e estariam sujeitos as intemperes do tempo e da natureza. Tomamos todos os cuidados para minimizar os riscos, desde a checagem diária da previsão do tempo até a escolha dos equipamentos. Tanto eu como meu irmão temos aquela equipamento de rastreamento por satélite (SPOT) que indica em tempo real sua posição no mapa e permite que em situações de emergência você possa apertar um botão e requisitar ajuda imediata. No meu caso também tomei o cuidado de montar uma mochila bem leve, com não mais que 10kg, o que me possibilitou andar mais rápido e me desgastar menos. Para isso optei em não levar equipamento de camping, e dormir na casa dos moradores da região. Em quase todas as praias no percurso é possível arranjar um quarto para dormir, assim como as refeições. Além de avisar diversas pessoas sobre a nossa aventura, também tivemos o cuidado em criar um plano B, no caso de um de nós não chegar até Martins de Sá, pois a comunicação por celular é precária durante a trilha, em muitos lugares não há sinal.

Dia 1 – São Paulo – Paraty Mirim

A viagem entre São Paulo e Paraty Mirim tem cerca de 290km e leva quase 5 horas para ser completada descendo pela estrada de Cunha, que já esta finalizada. Saímos de São Paulo por volta das 15hs e seguimos direto até Paraty para jantar. De Paraty até Paraty Mirim são cerca de 18km, sendo 6km em estrada de terra. Chegamos em Paraty Mirim a noite e fomos procurar uma pousada para pernoitar. Acabamos dormindo na Paraty Paradiso, uma pousada perto da praia e do início da trilha. Ainda de noite resolvemos deixar tudo pronto para o dia seguinte, incluindo inflar a prancha do meu irmão, pois a ideia era acordar 5:30 da manhã para iniciar a viagem às 6:30.

Dia 2 – Paraty Mirim – Pouso da Cajaiba

Saímos da pousada na hora prevista, deixamos o carro em um estacionamento na beira da praia e nos despedimos. Meu irmão seguiu o caminho do mar e eu saí na direção oposta procurando o início da trilha que leva até o Saco do Mamanguá. O sol ainda estava baixo no horizonte e a visibilidade prejudicada, acabei demorando um pouco para achar o início da trilha, mas logo que entrei não tive problemas e completei esse primeiro percurso em cerca de 50 minutos.

Do lado norte do Saco estava preocupado em achar um barco o mais rápido possível para cruzar para o outro lado e acabou sendo extremamente fácil. Na primeira entrada que encontrei tinha uma placa falando sobre passeios de barco e algumas casas de caiçaras. Fiz um acordo e por R$ 20 me levaram até a praia do Cruzeiro no lado sul do Mamanguá, em um trajeto bem curto, de cerca de 6 minutos. De lá já era possível avistar o Pico do Pão de Açúcar e ter uma dimensão do que estava por vir. A subida é bem puxada, mas consegui fazer em apenas 45 minutos e a vista lá de cima é sem dúvida um dos pontos altos de toda a viagem. Simplesmente espetacular! O cume tem cerca de 385 metros, o tempo estava perfeito e o sol ainda estava no horizonte o que possibilitou uma vista fantástica do Saco do Mamanguá e toda a sua beleza natural.

vista do mamangua
No topo do Pão de Açúcar

A descida foi tranquila, tirando a cobra que cruzei no caminho, e então segui meu rumo com destino a praia do Engenho ainda dentro do Mamanguá em um percurso de aproximadamente 1:30hs. Da praia do Engenho sai uma trilha em direção à Praia Grande do Cajaíba, um trecho complicado com cerca de 380 metros de elevação, quase 4km de trilha e muito sol na cabeça. A Praia Grande é muito bonita, com uma lagoa na parte de dentro e alguns bares na outra ponta da praia, onde eu resolvi parar para descansar e almoçar. Com as energias reestabelecidas depois de um PF de peixe frito, continuei minha caminhada passando por todas as praias até o Pouso da Cajaíba. Quando cheguei lá, perto das 4 horas da tarde achei melhor encerrar o dia, já havia andado cerca de 22km e estava muito cansado. Para chegar em Martins de Sá onde havia combinado de me encontrar com meu irmão seria necessário andar mais cerca de 4km e atravessar outo morro. Achei um quarto para passar a noite por R$ 50 e tentei entrar em contato com meu irmão por celular, mas não tive sucesso.

Praia Grande da Cajaiba

Dia 3 – Pouso da Cajaíba – Vila do Oratório

O segundo dia de trilha começou bem cedo. Às 6:00hs já estava iniciando a trilha rumo a praia Martins de Sá. Esse trecho tem uma subida leve e levou cerca de 1:20hs para ser concluído. A praia realmente vale a pena conhecer, sem dúvida é a mais bonita do percurso. Lá encontrei meu irmão que pernoitou na casa do Seu Maneco, progenitor da única família residente na praia. O lugar é ideal para quem gosta de acampar e curtir o contato com a natureza. A energia elétrica funciona somente por geradores e é desligada de noite, a área de camping é bem espaçosa e com infraestrutura de banheiros e espaço para cozinhar. Seu Maneco não permite a comercialização e nem o consumo de bebidas alcoólicas na praia. Eu não sou surfista, mas dizem que a praia é boa para pegar ondas também.

Praia Martins de Sá
Praia Martins de Sá

De lá sai em direção a praia da Ponta Negra, um trajeto bem complicado com uma elevação máxima de 534m no meio da mata atlântica e me tomou quase 4 horas para atravessar. Foi outro momento especial da viagem, de introspecção e superação, pois o calor era intenso e a umidade extrema dentro da mata.

Chegando na Ponta Negra encontrei mais uma vez meu irmão e resolvemos parar para almoçar e descansar um pouco. A praia não é das mais bonitas, mas conta com uma comunidade caiçara bem desenvolvida e estrutura de bar e restaurante.

Praia do Sono

Depois do almoço segui meu caminho para o destino final da trilha, a Vila do Oratório. É um trecho bem legal, com muitas praias bonitas e sem muita dificuldade. Em pouco tempo estava no ponto de ônibus aguardando o circular para Paraty Mirim. O problema é que o ônibus te deixa na estrada, onde teoricamente deve-se pegar outro ônibus até a praia de Paraty Mirim, mas a frequência desse último ônibus é bem baixa, a cada 2 horas ou algo parecido. Consegui pegar uma carona e logo estava de volta na praia onde iniciei a aventura. Foi o tempo de sacudir a poeira e zarpar para pegar meu irmão que me aguardava na estrada para seguirmos nosso caminho rumo a São Paulo.

Como Chegar em Paraty Mirim

De São Paulo: A entrada de Paraty Mirim fica logo após o km 584 da estrada BR 101 (Rio-Santos), a saída fica à direita vindo de Paraty, onde inicia uma estrada de terra/asfalto de 7 km até a praia. Recomendo pegar a Dutra saindo de São Paulo e descer a Serra para Paraty pela estrada de Cunha que agora esta liberada para o tráfego.

Do Rio de Janeiro: O trevo de entrada para Paraty Mirim se localiza a 10 km após a entrada/rotatória da cidade de Paraty (sentido Rio – Ubatuba) na estrada BR 101 (Rio-Santos), a saída fica à esquerda, onde começa uma estrada de terra de 7 km até a praia.

De busão: Para quem chega de ônibus em Paraty: deve pegar o ônibus na rodoviária de Paraty com destino a PARATY MIRIM – o percurso tem o tempo de aproximadamente 40 minutos. A Passagem custa R$ 3,20.

Hospedagem em Paraty Mirim

Nós ficamos hospedados na pousada Paraty Paradiso, mas existem diversas pousadas no local.

Estacionamento em Paraty Mirim

Na praia existem 2 estacionamentos bem perto do início da trilha e eles cobram cerca de R$10-15 por dia para deixar os carros lá.

O que levar na Trilha

No meu caso optei por viajar leve e rápido e por isso não levei equipamentos de camping e comida. Somente uma rede e lanche de trilha.

  • Boné
  • Protetor solar
  • toalha de secagem rápida
  • mochila de 20/25 litros
  • calçado apropriado para caminhada
  • material de primeiros socorros
  • lanche de trilha (barras de cereal, nozes, mel, bananinha, frutas, chocolate)
  • maquina fotográfica
  • canivete
  • celular
  • dinheiro (super importante para pagar o barco, alimentação, hospedagem, ônibus de volta)
  • uma troca de roupa
  • óculos de sol
  • papel higienico
  • sacos plásticos para recolher o seu lixo
  • GPS

Lembre-se sempre de respeitar o lugar e as pessoas por onde você caminha. Sempre leve o seu lixo embora com você, não deixe nada para traz. Essa é uma aventura que pretendo fazer de novo.

Aqui esta o tracklog da travessia.

Veja o link (caminhosdosup.com.br) para a travessia do meu irmão por mar:

Para cima e avante!

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